Espaço para partilha de resultados do trabalho em torno do livro Criaturas de Ñanderu, escrito pela autora indígena Graça Graúna e ilustrado por José Carlos Lollo

Proseando com a autora…

…Conversando com leitores(as)
Lucelita Santos e Edson Correia: Com quantos anos a senhora começou a produzir seus livros e qual a senhora considera mais marcante?
GGRAÚNA: O meu despertar para a escrita começou na adolescência. Eu costumava anotar coisas que me faziam triste ou feliz. Eu tinha mania de escrever cartas imaginárias para não me sentir sozinha, longe dos parentes inddígenas. Nessa época eu vivia no internato do Colégio N.S. das Neves, no Rio Grande do Norte. Desde então aprendi a superar os tempos ruins fazendo versos, mesmo quando algumas pessoas diziam que não era poesia o que eu escrevia.  Na década de 70 escrevi um texto que eu intitulei de ”Comunidade de vizinhança”, uma crônica  que foi publicada num jornal irreverente, de Recife, chamado Xepa. Fiquei entusiasmada quando soube mais tarde que o escritor Hermilo Borba Filho gostou do meu texto. Isto foi muito marcante para mim.  Na década de 80, quando ingressei na Universidade, participei de um concurso de poesia; vi depois numa antologia de poesia brasileira os meus versos publicados. Ainda que a antologia  fosse coletiva, ter participado dela foi importante. Na minha timidez eu me vesti de coragem e me atrevi a escrever, apesar da  pouca experiência de leitura.

Alessandra Feitosa: Em que obra produzida a senhora se sentiu mais realizada?
GGRAÚNA:  Embora eu escreva narrativa (histórias, ensaios, artigos, crônicas), a poesia fala mais alto em mim. Foi um momento especial quando vi meu primeiro livro publicado. Trata-se de “Canto mestizo”; um livro de poemas prefaciado e publicado em 1999  pela escritora, professora e doutora  Leila Míccolis, da Editora Blocos, Rio de Janeiro.  Na opinião de Leila, a dosagem  entre sentimento e racionalidade é uma habilidade difícil (…) que está expressa em Canto mestizo”.

Daniele Ramos: Qual dos seus livros a senhora considera que teve a maior aceitabilidade do público leitor?
GGRAÚNA: Não faz muito tempo, recebi um e-mail de Leila Míccolis comentando da repercussão de “Canto mestizo”. Depois de tanto tempo, esse meu livro de poemas ainda pulsa entre os leitores.  Também não posso deixar de falar na boa aceitação em torno do livro “Criaturas de Ñanderu”; um bom exemplo é o trabalho que foi realizado no Dia Nacional de Leitura junto à  Biblioteca de São Paulo (antiga prisão Carandiru); outro encontro marcante foi com os alunos e alunas, professores(as) do Colégio Sapiens (São Bernardo do campo/SP) e da Escola Estadual João Fernandes da Silva, na cidade de São João/PE.

Cristiane Monteiro: Qual dos seus livros mais a emociona numa nova leitura, por quê?
GGRAÚNA: É sempre gratificante quando um leitor, uma leitora (jovem ou adulto) se aproxima e faz comentários elogiosos acerca dos poemas que escrevo, das histórias  que eu conto. Fico bastante emocionada, pois não é fácil alcançar a atenção de alguém por meio da palavra (oral ou escrita, em verso ou em prosa); para mim,  isto significa uma dádiva; principalmente nesses tempos em que as pessoas quase não encontram tempo para conversar umas com as outras. Considero-me uma escritora privilegiada pelos leitores que eu tenho; leitores da zona rural e da cidade grande; leitores nas universidades e nas escolas de ensino médio; leitores nos blogs, leitores que eu encontro no metrô e no ônibus…  em diferentes lugares. Tudo isto me cativa, me emociona bastante.

José Genilson: Há algum livro que a senhora escreveu e ainda não publicou? Se houver, fale um pouco pra gente sobre ele(s).
GGRAÚNA: Faz alguns anos que eu venho burilando as ideias entre uma viagem e outra. Quando arrecado um tempinho, fico no meu esconderijo (minha casa) e me dano a escrever…escrever….escreviver. Estou concluindo um livro sobre “Literaturas africanas de língua portuguesa”; um livro voltado para a educação a distância, solicitado pela UPE. Estou gostando das ideias que me chegam, na composição desse livro. Tem mais um livro sim que escrevi e dele extraio minhas palestras; ainda não tive tempo de publicá-lo como eu gostaria. Refiro-me a minha pesquisa acerca da literatura indígena contemporânea no Brasil, mas posso adiantar que essa publicação está para acontecer. Quem viver, verá….(risos)…

Profa. Karina: Qual é o seu livro de cabeceira e qual é o seu/sua autor(a) favorito(a)? Há algum livro que a senhora leu e não recomenda a leitura?
GGRAÚNA: Faz muito tempo que eu escrevi um poema intitulado “Canção peregrina”; nele, falo de um colar tecido de muitas histórias e diferentes etnias. Quero também dizer com isso, que somos o resultado de múltiplos saberes em formato de livros que estão em prateleiras; em formato árvore, de voos, de canções… meus livros são meus amigo, meus guiass e uma porção deles me acompanha dia e noite. Sendo assim, para não cometer nenhuma injustiça, prefiro não citar nomes de escritores(as), poetas.  Mas posso dizer sem medo de errar que entre os livros que eu não recomendo estão aqueles que não respeitam os direitos humanos; que banalizam a poesia; que trazem história de enganação. Abomino os livros carregados de preconceito literário.

* Em breve, mais um dedinho de prosa com a autora.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Nuvem de tags

%d blogueiros gostam disto: